Antônio Antunes Ribas (1893-1904)


Fundador e 1º Grão-Mestre do Grande Oriente do Rio Grande do Sul.

Grão-Mestres Adjuntos: Augusto Cezar da Silva (1893-1900) e João Baptista Pereira Souto (1900-1904)

Que é o homem? Uma inteligência, uma porção revestida de matéria. Demonstra-se assim que a natureza íntima do homem é um fragmento de Deus, um espírito imortal revestido de invólucros, de agregados de matéria, de corpos, ou como se queira chamar esta parte temporária e mutável, em contraste com sua eterna natureza dimanante do mesmo Deus. Para melhor compreender o que é o homem, devemos considerar a continuidade da vida, porque continuamente está desenvolvendo sua Divindade íntima e modelando seus corpos mutáveis, de sorte que expressem sempre suas capacidades crescentes (…) Portanto, a vida é um desenvolvimento contínuo, buscando-se nas experiências anteriores os caminhos para a eternidade, para a evolução.

Com estas palavras, o Grande Oriente do Rio Grande do Sul homenageava, em 1995, seu 1° Grão- Mestre, Irmão Antônio Antunes Ribas, em publicação editada pelo Departamento de Cultura e Propaganda. E estas palavras bem descrevem o que representa para os Maçons gaúchos o Desembargador Antunes Ribas, homem a quem coube a tarefa não só de dirigir e afirmar a novel organização maçônica que surgia, mas principalmente a de apaziguar e congregar irmãos que vivenciavam a mais sangrenta revolta já ocorrida neste Estado, a Revolução Federalista (1893-1895).

Antônio Antunes Ribas nasceu na cidade de Santo Ângelo, em 08.out.1844, filho de Antônio Antunes da Costa e Anna Maria Ribas Antunes. Formou-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito de São Paulo em 1868. Entremeio aos estudos combateu na Guerra do Paraguai, chegando como voluntário e regressando ao Brasil na condição de Tenente de Cavalaria. No ano de sua formatura, casou-se com Lydia Rozeira Ribas. Sua carreira de advogado iniciou em Cruz Alta, onde exerceu a função de Promotor Público. Em 1872, já exercia a advocacia na capital do Estado. De 1874 a 1878, foi Juiz Municipal em Porto Alegre. Transferiu-se para Pernambuco, onde exerceu a Chefia de Polícia. Em 1890, voltou para Porto Alegre para chefiar a Polícia do Rio Grande do Sul. Após a reorganização e reestruturação da magistratura estadual, foi conduzido ao Superior Tribunal como Desembargador. Foi Vice-Presidente eleito da Corte Superior por vários mandatos consecutivos. Na política, foi Deputado Provincial em 1875 e Deputado Geral em 1880, pelo Partido Liberal.

Antunes Ribas ingressou na Ordem Maçônica em São Paulo, na Loja “Sete de Setembro”, no ano de 1864. Junto a Venâncio Aires, fundou a Loja “Luz da Serra”, em sua cidade-natal. Ajudou a fundar ainda a Loja “Luz Serrana”, em Lajes, SC, da qual foi Venerável-Mestre. Em 1873, ingressou na Loja “Tolerância”, em Porto Alegre. Na capital, foi fundador e 1° Venerável-Mestre da Loja “Cruzeiro do Sul”.

Em meados de 1893, quando a tensão social crescera no Estado por conta do recrudescimento das ideias políticas levadas ao extremo em seu desacordo, opondo conterrâneos e, muitas vezes, irmãos, em ferozes disputas, despontava uma figura com a firmeza e a fraternidade necessárias, em suas doses corretas, para liderar homens livres. Antônio Antunes Ribas era, em 1893, Chefe de Polícia do Estado. Fiel ao Presidente, responsável pela manutenção da segurança pública, subordinado à política de um dos partidos combatentes, foi, ao mesmo tempo, artífice e peça fundamental na constituição de uma nova Potência Maçônica, legal, legítima e autônoma, surgida do clamor dos Maçons gaúchos frente ao desprezo do Poder Central, no Rio de Janeiro. O Grande Oriente do Rio Grande do Sul era a resposta ao sentimento de orfandade não só dos Maçons, mas do povo gaúcho em meio a um dos mais sangrentos capítulos da nossa história. Mas, acima de tudo, mesmo com toda a sua responsa­bilidade de autoridade pública, soube com maestria con­duzir seus irmãos, mesmo opositores, ao entendimento. Não transigiu jamais suas responsabilidades, nem para com o governo, nem para com a Maçonaria. Não é à toa que a pacificação do Estado coincide com a organização da Ordem Maçônica.

Finda a conflagração, Antunes Ribas dedicou todas as suas energias para o desenvolvimento do GORGS, traçando como meta a estruturação (tanto no aspecto patrimonial, quanto legal e humanitário) condizente com a nova estrutura político-social do País. Aflorava, então, o visionário Grão-Mestre. O mandatário idealizou, planejou e iniciou diversos projetos que serviram de inspiração para futuras administrações do GORGS, bem como a diversas organizações Maçônicas do Brasil e do mundo. Talvez seja difícil registrar em tão curto espaço editorial todas as iniciativas precursoras de Antunes Ribas no Grão-Mestrado do GORGS. Detalhá-las, então, seria impossível. Mas, pela importância de todas elas, referiremos as principais. Sua primeira tarefa foi a modernização da legislação da entidade. A constituição aprovada, com intensa participação de todos os Maçons, serviu de parâmetro para outras Potências e baseou as constituições futuras do próprio GORGS.

Homem à frente de seu tempo e com extraordinária sensibilidade para os problemas sociais, elaborou estatutos para a criação de uma Cooperativa Maçônica, na qual os Maçons encontrariam todos os gêneros de consumo a preço reduzido. Criou a Previdência Maçônica, seguro de vida facultativo que privilegiava as viúvas e filhos de Maçons. E foi além: propôs a criação de fundo especial, cuja arrecadação seria destinada à construção de um edifício-sede para o GORGS, um asilo, um orfanato, serviços gerais de assistência médica, assistência jurídica e serviço fúnebre completo para Maçons e suas famílias.

Preocupado com a liberdade absoluta de consciência, Antunes Ribas incentivou a arrojada ideia de clubes onde fossem lidos em conjunto jornais e constituições e trocadas ideias sobre temas que afetassem o bem-estar e o progresso da sociedade. Fundou a Grande Associação Beneficente de Senhoras do GORGS (GABS), com um núcleo central em Porto Alegre e diversos clubes locais pelo interior do Estado, a fim de, além de aproximar as famílias ao dia a dia da Ordem Maçônica, estender o trabalho filantrópico a maior número possível de pessoas. Tais Associações foram responsáveis pela criação de escolas como o Ginásio Pelotense, em Pelotas, e o Ginásio Ganganelli, na capital.

Na questão litúrgica, reformulou e modernizou rituais. Exemplo, os manuais de pompas fúnebres, de adoção de Lowtons e de esponsais maçônicos, os quais ainda hoje baseiam as cerimônias realizadas no Estado e em todo o Brasil. Criou ainda a Loja do Artesão, na qual as exigências para ingresso pautavam-se apenas no campo moral, facilitando o ingresso de bons homens, mesmo que de poucas posses.

Na gestão de Antônio Antunes Ribas, o GORGS torna-se entidade proeminente na cena internacional. Nas Relações Internacionais, estabeleceu tratados com Potências Maçônicas da Alemanha, França, Espanha, Portugal, Holanda, Suíça, Itália, Egito, Grécia, Uruguai, Chile, Venezuela, México, Porto Rico e Cuba. Iniciou também relações diplomáticas com o grande Oriente do Paraná, na expectativa da criação de uma organização maçônica independente nacional, cujo título distintivo já havia inclusive imaginado: Confederação dos Grandes Orientes Unidos do Brasil. No âmbito local, organizou o Congresso dos Veneráveis-Mestres, encontro que reuniu, pela vez primeira, os dirigentes de todas as Lojas Maçônicas jurisdicionadas, em 1902. Soube, como poucos, interpretar as causas das dificuldades de outras Potências independentes contemporâneas, garantindo êxito às iniciativas lançadas pelos próceres gaúchos fundadores do GORGS.

Objetivou sempre os fins mais elevados da Ordem Maçônica, traduzidos na prática de ações em favor da liberdade de consciência, da divulgação intensa e extensa da doutrina maçônica e do amparo aos Maçons e suas famílias, ou seja, a prática da caridade. Em 1904, escreveram nossos Irmãos acerca de Antunes Ribas: “Pode ser dito que suas ideias tenham sido, em parte, meros projetos. Mas aqueles que o viram, apesar de doente, arrastando-se, mesmo em noites chuvosas, até o seu gabinete de trabalho, no Grande Oriente, onde nunca se fez esperar; quem conhece a soma de sacrifícios, inclusive de ordem material que lhe acarretavam o exercício do Grão-Mestrado; os que testemunharam a sua dedicação à causa maçônica, não serão capazes de afirmar que as possíveis deficiências vindouras da Maçonaria Rio-grandense existam por incúria sua. Seus ideais serão realidade no futuro”.

O Grão-Mestre Antônio Antunes Ribas veio a falecer em 21.jun.1904. Está sepultado no cemitério da Santa Casa, quadra 03, lote 1071. O jazigo perpétuo, adquirido pelo GORGS, recebeu melhorias em 2014, com projeto e execução do Irmão Paulo Estevão Troian. A sepultura, originalmente projetada pelo Irmão Afonso Hebert, ora se destaca, convidando todos os Maçons, cônscios de que ali jaz um dos pilares do GORGS e da própria Maçonaria Gaúcha, a render suas homenagens, hoje e sempre!

Matéria publicada na edição de março de 2015 da revista o Delta.

Texto: Ir. Rodrigo Reus

Pesquisa: IIr. Francisco Munhoz Silveira e Rodrigo Reus.